Textos

Recolha de textos de gente não ligada com o MCDP mas com cujas palavras concordamos, mesmo que só parcialmente. Recolhemos também outras informações que consideramos importantes.

 

 

Rui Rio: Crise é culpa dos políticos que gastaram ‘dinheiro das pessoas’ para ganhar eleições

O social-democrata Rui Rio afirmou hoje que a crise é culpa de «opções políticas completamente erradas» de ministros, primeiros ministros e presidentes de câmara que gastaram «dinheiro dos impostos das pessoas no seu benefício político», nomeadamente para ganhar eleições.

«Na origem do endividamento público gigantesco estão opções políticas erradas em que o ministro, o primeiro-ministro ou presidente de câmara gastou dinheiro dos impostos das pessoas, endividou a câmara e o país no seu benefício político directo, ou seja, para ganhar as próximas eleições», afirmou o presidente da Câmara do Porto.

Rui Rio falava no Porto, no 1º Congresso Internacional ‘Ciência, Empreendedorismo e Empregabilidade’, sustentando que foi isto «que aconteceu no país e à escala municipal, em muitas câmaras municipais, ao longo dos anos».

«Por isso estamos aqui e por isso estamos a sofrer. Na base disto estão opções políticas completamente erradas, para não dizer nada sérias, nada honestas. É bom que se explique que foi assim para aprendermos qualquer coisa», defendeu.

Para o social-democrata, «a miserável situação em que nos encontramos» tem origem «na política, na falta de conhecimento de muitos políticos e, acima de tudo, na falta de seriedade dos políticos».

«A maior parte era consciente e sabia que estava a fazer o errado», acusou.

Também o endividamento externo é culpa da política, porque «o discurso político foi todo ele errado no sentido de apresentar facilidades e conseguir ganhar a confiança das pessoas com algo que sabíamos não ser possível sustentar», acrescentou.

Considerando «difícil» que surjam notícias de «alguma recuperação económica» em breve, Rio admitiu que em «algum dia há-de ser».

Nessa altura, avisa, não serão precisos mais de dois ou três meses para «surgir outra vez o discurso do temos de rasgar horizontes, não podemos ser economicistas, temos de ter ambição».

Nesse contexto, «voltaremos facilmente a esquecer a desgraça em que nos metemos», antecipa o autarca, para quem é importante «fazer pedagogia» agora, «no momento em que há alguma capacidade para ouvir por via do sofrimento».

Rui Rio culpa também o «défice de produtividade» pela crise a que o país chegou considerando que: «não tínhamos competitividade para ter o nível de vida que tivemos».

«Metemos dentro do país aquilo que foi o trabalho dos outros e ficamos a dever. Consumimos o que os outros fizeram. [Para contrariar isso] Ou baixávamos o nível de vida ou subíamos a produtividade. Temos de ajustar nível de vida ao que produzimos», defendeu.

A «única solução» para o problema é «incorporar mais conhecimento na produção» e para isso a «ligação entre as universidades e as empresas é vital».

Lusa/SOL

http://sol.sapo.pt/inicio/Politica/Interior.aspx?content_id=62083

 

 

A vingança do anarquista

Se as pessoas sentem que dão — trabalho, estudo, impostos — e não recebem nada em troca, o governo está a trabalhar para a sua deslegitimação.

Aqui há tempos havia um enigma. Como podiam os mercados deixar a Bélgica em paz quando este país tinha um défice considerável, uma dívida pública maior do que a portuguesa e, ainda por cima, estava sem governo? Entretanto os mercados abocanharam a Irlanda e Portugal, deixaram a Itália em apuros, ameaçaram a Espanha e mostram-se capazes de rebaixar a França. E continuaram a não incomodar a Bélgica. Porquê? Bem, — como explica John Lanchester num artigo da última London Review of Books — a economia belga é das que mais cresceu na zona euro nos últimos tempos, sete vezes mais do que a economia alemã. E isto apesar de estar há dezasseis meses sem governo.

Ou melhor, corrijam essa frase. Não é “apesar” de estar sem governo. É graças — note-se, graças — a estar sem governo. Sem governo, nos tempos que correm, significa sem austeridade. Não há ninguém para implementar cortes na Bélgica, pois o governo de gestão não o pode fazer. Logo, o orçamento de há dois anos continua a aplicar-se automaticamente, o que dá uma almofada de ar à economia belga. Sem o choque contracionário que tem atacado as nossas economias da austeridade, a economia belga cresce de forma mais saudável, e ajudará a diminuir o défice e a pagar a dívida.

A Bélgica tornou-se assim num inesperado caso de estudo para a teoria anarquista. Começou por provar que era possível um país desenvolvido sobreviver sem governo. Agora sugere que é possível viver melhor sem ele.

Isto é mais do que uma curiosidade.

Vejamos a coisa sob outro prisma. Há quanto tempo não se ouve um governo ocidental — europeu ou norte-americano — dar uma boa notícia? Se olharmos para os últimos dez anos, os governos têm servido essencialmente para duas coisas: dizer-nos que devemos ter medo do terrorismo, na primeira metade da década; e, na segunda, dizer-nos que vão cortar nos apoios sociais.

Isto não foi sempre assim. A seguir à IIa. Guerra Mundial o governo dos EUA abriu as portas da Universidade a centenas de milhares de soldados — além de ter feito o Plano Marshall na Europa onde, nos anos 60, os governos inventaram o modelo social europeu. Até os governos portugueses, a seguir ao 25 de abril, levaram a cabo um processo de expansão social e inclusão política inédita no país.

No nosso século XXI isto acabou. Enquanto o Brasil fez os programas “Bolsa-Família” e “Fome Zero”, e a China investe em ciência e nas universidades mais do que todo o orçamento da UE, os nossos governos competem para ver quem é mais austero, e nem sequer pensam em ter uma visão mobilizadora para oferecer às suas populações.

Ora, os governos não “oferecem” desenvolvimento às pessoas; os governos, no seu melhor, reorganizam e devolvem às pessoas a força que a sociedade já tem. Se as pessoas sentem que dão — trabalho, estudo, impostos — e não recebem nada em troca, o governo está a trabalhar para a sua deslegitimação.

No fim do século XIX, isto foi também assim. As pessoas viam que o governo só tinha para lhes dar repressão ou austeridade. E olhavam para a indústria, e viam que os seus patrões só tinham para lhes dar austeridade e repressão. Os patrões e o governo tinham para lhes dar a mesma coisa, pois eram basicamente as mesmas pessoas. Não por acaso, foi a época áurea do anarquismo, um movimento que era socialista (contra os patrões) e libertário (contra o governo).

Estamos hoje numa situação semelhante. Nenhum boa ideia sai dos nossos governos. E as pessoas começam a perguntar-se para que servem eles.

Rui Tavares, in Público, 22 de Setembro de 2011, online em http://ruitavares.net/textos/a-vinganca-do-anarquista/

 

 

O POVO

“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o POVO. .

Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos. Estes são o POVO, e são os que nos ALIMENTAM. .
Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos. Estes homens são o POVO, e são os que nos VESTEM. .
Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias. Estes homens são o POVO, e são os que nos ENRIQUECEM. .
Estes homens, nos tempos de lutas e crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, como machas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento. Estes homens são o POVO, e são os que nos DEFENDEM. .
Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados. Estes homens, são os que nos SERVEM.
E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem? Primeiro, despreza-os; não pensa neles, trata-os como se fossem bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos, não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades, forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga, não lhes dá proteção; e, terrível coisa, não os instrui, deixa-lhes morrer a alma. É por isso que os que têm coração e alma, e amam a JUSTIÇA, devem lutar e combater PELO POVO. .
E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema.”
Eça de Queirós, in jornal “o Distrito de Evora”, 10 de Janeiro de 1867

 

 

O mito da crise da Islândia

Ando há meses a ouvir falar da Islândia, segundo a crença popular, quando deram pela crise os Islandeses mandaram os políticos para a prisão, fizeram um referendo onde decidiram que não iam pagar as dividas dos bancos e com isto deram a volta por cima e agora são um país próspero.

Como não acredito em milagres, dei-me ao trabalho de investigar e é claro que o que descobri é que o único de verdade no que as pessoas dizem é o facto de realmente eles terem dado a volta à crise, o resto são mitos.

Vejamos, a Islândia é um pequeno país, tem 320 mil habitantes, até 2008 tinha uma economia próspera, todo o mundo tinha um nível de vida muito elevado e uma enorme facilidade de chegar ao crédito. Com muito dinheiro disponível, os bancos investiram no imobiliário americano e na divida de países terceiros. Com a crise americana de 2008, os bancos foram ao fundo e com eles a economia do país.

Aqui está a primeira diferença com a nossa crise, a da Islândia é puramente financeira, os bancos tem problemas mas o estado é sólido, a nossa crise é basicamente ao contrário, exceptuando o BPN, os nossos bancos são mais ou menos sólidos, ao contrario do estado que tem graves problemas estruturais.

O que fez a Islândia para atacar a crise? Nacionalizou os bancos e pediu dinheiro ao FMI e à China para os refinanciar. Depois desvalorizou a moeda em 50%. É claro que uma desvalorização da moeda levou a que muita gente tivesse problemas para pagar os créditos, as prestações duplicaram e os bens aumentaram 50%, mas como o nível de vida era muito elevado, as pessoas passaram a ter menos dinheiro, mas continuaram a conseguir pagar e continuar a comprar as coisas, o que fez com que a economia continuasse a funcionar e até a crescer.

Por cá também se nacionalizou um banco, mas acho que todos estamos de acordo em que em lugar de resolver o que quer que fosse, isso contribuiu e muito para aumentar o buraco nas contas do estado.

A nossa crise é completamente estrutural, não tem nada a ver com a crise da Islândia, e não há receitas iguais para crises diferentes, aliás, nem para crises iguais. Além disso, é muito diferente tratar das contas de um país de 320 mil habitantes ou de um de 10 milhões…

Por fim, é verdade que na Islândia levaram o ex[-]primeiro ministro ao banco dos réus, mas o que não se diz por cá é que  este foi ilibado de todas as acusações. Também é verdade que fizeram um referendo sobre pagarem ou não algumas dívidas dos bancos… mas ninguém tem dúvidas que o dinheiro que a China e o FMI injectaram nos bancos nacionalizados é para se pagar.

Há quem ache que uma mentira repetida muitas vezes se torna verdade, mas comparar a crise da Islândia e o que por lá se passou com o que se passa por cá é ou ignorância ou pura demagogia.

432508.html

 

NÃO SOU CONTRA A AUSTERIDADE

Eis um título bombástico para chamar a atenção do leitor.

Num blogue de esquerda um autor alega não ser contra a austeridade? Estará ele a favor das políticas radicais e devastadoras que este desgraçado Governo tem promovido?

Não. Não estou.

Na verdade, eu dediquei uma série de textos a explicar que as políticas de Passos Coelho-Vítor Gaspar, longe de serem austeras, são despesistas.
Vender a Caixa Geral de Depósitos quando ela vale cerca de 5 vezes menos do que há poucos anos atrás (Visão, 26 Setembro 2012) não é austeridade – é despesismo. Vender a EDP ao desbarato em negociatas mais que suspeitas não é austeridade – é despesismo. Dar o petróleo do Algarve, prejudicando o turismo e o ambiente, a troco de nada, não é austeridade – é despesismo. E os exemplos de despesismo deste Governo são tantos e tantos…

O problema aqui é semântico. Para mim, a palavra “austeridade”, em si, tem uma conotação bastante positiva. E faz sentido que a tenha na discussão política. Um Governo austero protege os activos nacionais, e evita gastos supérfluos ou desnecessários, gerindo cuidadosamente os bens públicos.

Perante os seus compromissos contratuais e legais, um Governo austero sente o dever de os honrar. Mas honrar os compromissos não é fazer cortes cegos na saúde, na educação  e nos salários – ignorando a Constituição da República – para evitar a reestruturação da dívida pública: é priorizar os compromissos a honrar (na impossibilidade de os satisfazer todos), compreendendo que o ataque especulativo ao país e as fragilidades insustentáveis da arquitectura do euro justificam uma outra força negocial na altura de defender os interesses nacionais.

Perante os diferentes interesses um Governo austero teria coragem de enfrentar o estigma da corrupção (há muito por onde fazê-lo), ou de lidar de outra forma  com a questão das PPPs.

Um Governo austero, caso abdicasse das Golden Shares (se devia fazê-lo ou não seria um debate ideológico interessante) não abdicaria de ser devidamente compensado  – mas um Governo despesista oferece esses bens públicos aos accionistas, muitos deles bem relacionados com o poder político.

O problema deste Governo não é austeridade a mais. É austeridade a menos. Exige muita austeridade dos Portugueses, é certo – mas em nome de um despesismo quase ilimitado. Desde a venda de activos valiosos ao desbarato, em processos pouco transparentes e muito suspeitos, até à negligência criminosa com que lida com os gastos intermédios (e o prometido orçamento de base zero, onde está?), passando pela recusa em defender os interesse nacionais no palco internacional (estamos a falar de pretensões justas e razoáveis!), este Governo encontrou no ataque ao trabalho, na tributação dos mais frágeis e no ataque às prestações sociais a saída para a crise internacional, que a sua irresponsabilidade tanto agravou.

No entanto, não é este o sentido que tem sido dado à palavra “austeridade”. Tanto a direita que a apregoa mas pratica o contrário, como a esquerda que rejeita estas políticas suicidas, usam a palavra “austeridade” para designar este ataque vergonhoso aos Direitos, Liberdades e Garantias dos cidadãos em nome de um despesismo sem fim, que só serve os mais poderosos. Para falarmos todos a mesma linguagem, posso também referir-me às políticas do actual Governo como sendo «austeras», e nesse caso rejeitar essa «austeridade».
Mas, já que agora posso, aproveito para esclarecer que, longe de austeras, as considero despesistas, vergonhosas, e algumas delas – se tivessemos um sistema legislativo adequadamente apetrechado para combater a corrupção – criminosas.

1 COMENTÁRIO:
  1.  Blondewithaphd Segunda-feira, Outubro 01, 2012 11:42:00 AM 

Aprendi a considerar a austeridade uma coisa a emular, algo benéfico e depurado até que chegou o dia em que austeridade começou a fazer parte do vocabulário político com todos os desvirtuamentos que o mesmo acarreta.

João Vasco, http://esquerda-republicana.blogspot.pt/2012/10/nao-sou-contra-austeridade.html