Entre o 25 de Abril e 25 de Novembro

Entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro há 214 dias. o dia a meio entre esses dois, o 107º, é o 15 de Agosto, razão porque seleccionamos este dia para fazer um ponto de situação da simbologia de uma e outra e da divisão entre a simbologia de uma e da outra data.

Por altura do 25 de Abril de 1974, Portugal era uma ditadura corporativista com censura, polícia política, prisões (e presos) políticos, etc., um país com finanças relativamente controladas mas balança comercial negativa desde 1942, uma elite política relativamente pequena mas corrupta económica e moralmente, população maioritariamente na pobreza, um país maioritariamente ruralizado embora com uma muito lenta (e em progressão) industrialização, muita da população nacional forçada a imigrar, e quase toda uma geração de jovens do sexo masculino alistados como militares a serem “carne para canhão” do regime numa guerra sem sentido e impossível de ganhar. Um grupo de jovens oficiais fartos de serem “carne para canhão” e ignorados pelas altas patentes do exército (a chamada “Brigada do Reumático”) fizeram um golpe de Estado que ao contrário de muitas tentativas de golpe ao longo da história do Estado Novo conseguiu chegar dos quartéis nos arredores de Lisboa e ganhar apoio da população e transformar uma revolta militar numa revolução com apoio popular, que quis cumprir três Ds: Democratizar, Descolonizar e Desenvolver.

Seguiram-se a transição política com risco de guerra civil, de golpes e terrorismos falhados ou bem-sucedidos à direita e à esquerda, de uma quase ditadura militar de esquerda (11 de Março a 25 de Novembro de 1975) que só o 25 de Novembro pôs cobro, a descolonização, o desenvolvimento da democracia representativa, da adesão europeia e do fim do boom económico português em 1999. O que foi então o 25 de Novembro? Bem, o que se passou foi mais ou menos isto:

Mais ou menos (seja como for é tempo de cicatrizar feridas e rirmos dentro do possível dos ridículos em todos os lados no passado devido a fanatismos datados).

E depois de toda esta história, como é Portugal hoje, 39 anos depois do 25 de Abril de 1974 e 38 depois do 25 de Novembro de 1975? Portugal é uma “semidemocracia” (os cidadãos protestam abertamente mas são pouco consultado fora de eleições), o regime é também corporativo, a censura é bastante rara mas ocorre, não há polícia política mas a polícia por vezes é manietada pelo poder político e é demasiado dura, não há prisões políticos mas há detenções breves legalmente duvidosas, o país está com finanças muito piores, balança comercial positiva pouco melhor muito pelo custo de exportar, a elite política é maior mas mais corrupta (mais economicamente que moralmente), população nem de longe pobre como antes de 1974 mas maioritariamente em dificuldades económicas/de crédito, um país com um fraco sector terciário desruralizado e desindustrializado, muita da população nacional forçada a imigrar, e a “carne para canhão” de hoje é o povo comum português em geral (apesar de descontentamentos nas forças armadas estas vivem com condições muito melhores que no 24 de Abril, mas quem é a culpa das grandes reformas das grandes patentes, se não dos governos que decidiram os valores e agora não os conseguem mudar?) com novas “brigadas do reumático de ex-políticos auto-desresponsabilizados virados comentadores ou “revolucionários profissionais” amadores (tosse, tosse, Mário Soares, tosse).

Descolonizar já não é preciso (excepto o “descolonizar” do Estado por clientelas), mas democratizar ainda é uma luta que só vai a meio, e o desenvolvimento parecia uma luta ganha mas agora retrocedeu anos e percentagens e está por re-combater.

O país não precisa de voltar aos “messianismos” do PREC, não precisa de combater a guerra civil que não se combateu em 1975, não precisamos da derrota “póstuma” do 25 de Novembro, de “grandoladas” para senha de nova revolução militar, enfim, de repetir as políticas gastas, mas enterrá-las de todo por uma nova forma de memória histórica e simbologia democrática. Um exemplo é dado por duas coisas de jeito feitas pela direita hoje no poder: a campanha “Abril é Evolução” em 2004 e o re-adoptar do cravo vermelho pelo PSD a partir de 2010 (acompanhado de grande discurso de José Pedro Aguiar Branco) e pelo CDS a partir de 2011.

http://videos.sapo.pt/yIbsmiwkgQ6tycdt6h9P

Quanto ao “Abril é Evolução” muitos protestaram o corte do R como anti-Revolução e a campanha por seruma imitação simplória da pop art de Warhol que não acrescentava grande simbolismo), mas representava o reconciliar da direita com o 25 de Abril e simplesmente elogiava a evolução trazida pela democracia: a enorme descida da mortalidade infantil para valores aceitáveis no mundo ocidental, o aumento da classe média, a saída de milhões da pobreza, o desenvolvimento de infraestruturas, etc. etc. São estes sectarismos caturros e inúteis que urgem enterrar.

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Não precisamos  do proverbial “novo Abril” (Abril aqui significando democratização), com novo programa de um novo movimento de liberalização democrática assente sobre os quatro Ds de Desenvolvimento, Descolonização do Estado de clientelas, Descentralização e +Democratização, mas de uma outra memória e simbologia de “Abril” e de “Novembro” (entendido como a história da democracia liberal portuguesa antes do Estado Novo, da oposição ao Estado e da implantação da democracia em Portugal) que não pertença só a quem se disser aberta e “puramente” de “esquerda”, acabar com a noção de que transversalistas, centristas, direitistas ou esquerdistas heterodoxos estiveram pela ditadura ou calados, quando os “pioneiros” da oposição à Ditadura Militar e do Estado Novo tendo sido republicanos liberais e monárquicos liberal-conservadores quando o movimento Socialista tinha nenhuma expressão e o PCP era ainda uma “criança”, a primeira oposição ao Estado Novo juntava esquerdistas com anarquistas, republicanos e nacional-sindicalistas tradicionalistas católicos, com os esquerdistas muitas vezes a simplesmente seguirem liderança liberal-democrata da oposição visto que sozinhos nunca poderiam derrotar o regime e conseguir apoio das massas apesar de o PCP ter sido a única força activa organizada durante toda a ditadura, e muitos dos mais visíveis opositores ao Estado Novo durante anos foram republicanos direitistas como Vicente Freitas e Francisco Cunha Leal, lembrar que quem primeiro propôs em Portugal a previdência social foi o republicano liberal Armando Manuel Marques Guedes e lembrar que a revolução foi feita por militares pouco ou nada politizados (Rodrigo de Sousa e Castro no seu livro “Capitão de Abril, Capitão de Novembro” descreve a politização destes depois, com um estilo “Testemunhas de Jeová” de membros de partidos esquerdistas a baterem às portas dos militares).

http://videos.sapo.pt/K7JOKs2wpf6CqYgaw72Y

E que vale para julgar os homens e suas ideias serem supostamente de “esquerda” e de “direita” e em quê? Importa mais ser de “esquerda” ou de “direita” em costumes, em economia ou sociedade? Esta discussão é perdermos-nos novamente em politiquices e tentar fazer “revoluções com balas de papel” (citando a crítica de Humberto Delgado à resistência tradicional ao Estado Novo). Os 25 de Abril e de Novembro não se fizeram para obrigar todos a ser de um lado do espectro político e no “grau” “certo”, e ai de quem não for do “lado certo” e o “suficiente”. A questão já não é (nunca foi) quem é mais ou menos democrata ou “salazarento”, hoje o 25 de Abril é de todos os partidos, o que interessa agora é que a democracia passe a ser não só dos partidos mas também da cidadania, os actuais problemas do país vêm disso e não de neo-salazarismos!

Lutem mas é pelo presente do povo Português em vez de andarem a lutar por um passado cujos factos nem conhecem!

Desmontemos falsos simbolismos: o Grândola Vila Morena é uma canção a louvar uma terra hospitaleira visitada pelo cantor e o comunitarismo desta e só ganhou o valor revolucionário porque foi a segunda senha do 25A (escolhida somente porque era uma canção de Afonso que não estava proibida), o E Depois do Adeus não é canção de protesto ou intervenção mas pop sinfónico dos anos ’70 sobre a perda da virgindade (voltem a ver a letra), o Somos Livres de Ermelinda Soares (do famoso refrão “Uma gaivota voava, voava”) tão amado pelos esquerdistas que até o fizeram parte do currículo obrigatório de Português nos anos ’70 foi produzido por um “reaccionário” abominado pela esquerda chamado José Cid, e quantos mais exemplos destes não se podem encontrar de divisões ideológicas de símbolos que não são tão simples quanto nós pensamos?

 

Urge um movimento pelos cidadãos independente de ideologia, contra a corrupção, contra a falta de democracia interna nos partidos, e contra a partidocracia, defendendo a reforma da lei eleitoral de forma a que independentes e grupos de cidadãos possam intervir na política e ser eleitos em igualdade de oportunidades com os partidos políticos, um movimento feito por cidadãos comuns e por aqueles que romperam com a corrupção dos seus próprios partidos, e que dê esperança às pessoas que caíram na abstenção, não se revendo em nada nem em ninguém. Urgem novas músicas, simbolismos, palavras de ordem. “Não basta o mês de Abril com o cravo na lapela” (citação do Comunista Ari dos Santos, o que aos olhos de muitos tornará a frase insuspeita de intenções “fascistas” de desvalorizar o 25 de Abril). Urge manter as conquista de Abril e de Novembro, o direito não só à indignação mas o dever para com a construção de um país melhor. A questão nunca foi de valorizar mais Abril ou Novembro, ou fazer de um feriado despromovendo o outro ou não, porque não passa na cabeça de um democrata racional deixar de comemorar o 25 de Abril nem fazer do 25 de Novembro outro feriado (muito menos às custas do 25 de Abril), mas urge livrar o 25 de Abril dos “detritos” de uma imagem caricatural do 25 de Abril criada por apoiantes e críticos, reconhecer as conquistas que também Novembro trouxe, e usar este período (em que, em 1975, a democracia estava em risco e o tipo de democracia que teríamos estava em jogo, para raciocinar que democracia queremos.

Façamos novos tipos de comemorações de cidadãos à margem dos feriados públicos, nos 25s de Abril e de Novembro, nos dois dias com dois cravos, de preferência uma mistura de cravos vermelhos e brancos (Salgueiro Maia descrevia que no próprio 25 de Abril os cravos nas armas dos soldados foram tanto vermelhos como brancos mas que os vermelhos foram enfatizados pelos fotógrafos), e assim como assim temos de recordar que os cravos são usados pelos politiqueiros verbosos de hoje para se provarem democratas sem necessidade de serem “praticantes” dela de facto.

Cartaz 25 Abril 2012 Almada

Cartaz do 25A de 2012 com cravos brancos em Almada (município comunista)

Chega de simples gabar “vazio” e gritos do “25 de Abril Sempre” de Jorge Sampaio, vazio de sentido (como mostrou uma rábula de Herman José).

O “25 de Abril Sempre” simplesmente dá graxa ao dia, diz para durar sempre…e é isto que significa. Esquece que se o dia em si não tivesse sido seguido por derrota da direita pseudo-golpista a 28 de Setembro de 1974, da esquerda golpista a 25 de Novembro de 1975, e dos últimos resquícios da extrema-direita golpista depois do 25 de Novembro, o 25 de Abril teria sido só o dia de uma tentativa de golpe para melhor pouco depois abortada. Ou seja, há “25 de Abril Sempre” porque “Abril é Evolução”! Abril (e Novembro, que nasceu dele) trouxe a democratização, trouxe (atabalhoadamente que fosse) a descolonização e europeização de Portugal, trouxe a derrota dos autoritarismos e totalitarismos em Portugal, o nascimento e crescimento do sector económico cooperativo e social e o desenvolvimento da sociedade civil livre, trouxe um breve desenvolvimento económico significativo cujos frutos se espalharam pela sociedade em geral no final do século passado. Ironicamente, quando hoje se critica qualquer governo por trair as “conquistas de Abril”, aquela esquerda que antes criticou incansavelmente o Abril é Evolução barrosista, sem pensar nisso está usando o mesmo raciocínio: de que Abril trouxe evolução, ganhos, melhorias. Hoje ante a crise nacional actual ainda mais vale a pena gritar Abril é Evolução, lembrando a evolução que houve até ao ano 2000, e a evolução que temos de garantir que volte a haver.

A democracia é difícil de manter, é cidadania complexa e muito trabalhosa, e precisa de muita dedicação, mas é justa e livre, o melhor sistema que arranjámos até agora, e por isso não nos demitiremos dela. A democracia não precisa de propaganda nem de louvores, precisa de ser vivida e praticada de facto, até que se cumpra o verdadeiro significado de democracia, o poder para o povo. Que finalmente consigamos realizar a democracia plena que seja de e para todos, a democracia de Abril e de Novembro, sem rancores do passado, sem memória manchada pelo sectarismo, sem dogmatismos de ideário, usando cravos brancos e vermelhos ou nenhuns, e digamos, livres de complexos e como voto de esperança para um futuro de verdadeira democracia:

QUE ABRIL VOLTE A SER EVOLUÇÃO! VIVA ABRIL E VIVA NOVEMBRO!

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“Desmanipular” a democracia

O nosso mundo encontra-se dividido, infelizmente até pontos artificiais. O distributista católico e liberal social (conservador cristão em costumes) G. K. Chesterton dizia à volta de 100 anos que “Todo o Mundo Moderno se divide entre Progressistas e Conservadores. O papel dos Progressistas é cometer erros continuamente. O papel dos Conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos.” Hoje, que palavras tão actuais: em várias partes do mundo temos sistemas instalados (que são os “conservadores”, não sempre em sentidos ideológicos, mas conservadores em relação a quererem conservar um status quo existente), manipulados, abusivos e que cedem sempre em relação à democracia plena aqui ou ali, e um campo completamente oposto, que recusa mesmo o positivo dos oponentes e se alguma vez chegar ao poder poderá “deitar o bebé fora com a água” na tentativa de cortar com o pior do sistema (que são os “progressistas” em relação ao sistema existente, embora possam ser ideológica ou eticamente conservadores ou moderados e não progressistas de facto). Na Venezuela, esta bipolarização chegou mesmo ao ponto de fragmentar famílias, pôr pais e filhos a não se darem, filhos a tentarem “subornar” os pais para mudarem de lado sob o risco de não os deixarem ver os netos quando os tivessem, os diferentes blocos a verem-se como literalmente diabólicos, entre outras coisas.

Esta bipolarização é negativa, porque bloqueia o sistema, radicaliza-o, torna-o um debate não entre diferentes posições mas entre diferentes posições que vêm do outro lado não visões diferentes mas caricaturas exageradas do lado oposto, acabando elas próprias por se extremarem defensivamente contra inimigos imaginários. Se não se pode reconhecer qualquer coisa de positiva no sistema corrente que se possa utilizar e desenvolver pode-se correr no risco de acabar por piorar as coisas ao avançar para um sistema por testar e deixar de lado o que o sistema tem de positivo, e se não reconhecemos ao oponente o direito de se expressar e ser ouvido que democracia verdadeira pode haver? Neste mundo parece que só se pode ser pela “austeridade” que só é austera para a maioria da população mas segue despesista para o governo, ou pelo despesismo que pouco mais faz que beneficiar interesses corporativos e dar “migalhas” aos pobres que como pobres ficarão, e parece que só se pode defender a democracia representativa ou democracias supostamente completamente directas e populares que não no fundo são manietadas por líderes demagógicos carismáticos e manobras de bastidores de puder pelo poder.

No meio destas bipolarizações em que se perde a preocupação principal com a democracia, encontramos gente à esquerda, à direita, ao centro e acima das ideologias que são “lufadas de ar fresco”. Eduardo Galeano é uma delas (basta dizer que Hugo Chávez deu uma cópia de “As Veias Abertas da América Latina” de Galeano a Obama como forma de o introduzir a um entendimento dos problemas da América Latina num socialismo que fosse “tragável” para um presidente “imperialista”). O Uruguaio Eduardo Galeano, vindo de uma família de pura ascendência europeia, tornou-se um dos principais teorizadores das questões latino-americanas e da democracia a nível mundial. Ele tem ao longo de anos desde os anos ’70 apresentado uma ideologia defendendo não só condições sociais mais igualitárias (terminando preconceitos raciais e sociais e mais controlo sobre forças globais que influenciem as vidas das pessoas, mas mais que uma destruição de organizações internacionais como o FMI, a OMC, multinacionais, o G8, o G20 e o BCE. Galeano tem visto com apreciação os movimentos espontâneos Occupy como parte do “nascimento de outro mundo”, visto que embora o mundo permaneça podre “há outro mundo neste [do mundo] ventre que está a aguardar”. Tal como a vida de dissidente de Galeano foi vivida entre Índios, guerrilhas, presidentes e prostitutas, defendendo compatriotas, miúdos da rua Brasileiros, os indígenas Mexicanos na sua causa e várias crianças abandonadas, em Portugal hoje precisamos de um movimento que viva entre as gentes das periferias portuguesas, movimentos sociais, dissidentes dos velhos partidos e membros de grupos ostracizados, defendendo cidadãos, minorias e cidadãos naturalizados, as populações regionais que lutam pelos serviços que lhes retiraram e vários “filhos da nação” portuguesa que foram abandonadas pelo sistema político. Deixemos o próprio Galeano dar a sua intervenção sobre a democracia social e a alternativa.

Os sete pecados capitais (ou mortais) e as sete virtudes democráticas da democracia portuguese

Perdoem a extensão prolongada e o uso de retórica e linguagem derivada da religião, mas sabesse que para qualquer ideal e sociedade sobreviver e frutificar-se deve ter subjacente uma espécie de “teologia” e de código, cobrir-se de um tipo de “religião secular” que lhe dê legitimidade. A nossa busca do aprofundamento da democracia não é diferente.

Assim, a maneira mais simples que achamos de falar da nossa visão das falhas do modelo democrático, e das estratégias que opomos em resposta a tais falhas, é recorrer à noção cristã dos pecados mortais. A primeira listagem de “pecados mortais” vem no Livro dos Provérbios atribuído ao Rei Salomão, onde se fala de «seis coisas que o Senhor detesta» e «sim, há sete que ele abomina»:

  1. «olhos altivos» (mais conhecido de nós como “orgulho”)
  2. «língua mentirosa» (simplificadamente “mentira”)
  3. mãos que derramam sangue inocente (uma subdivisão da nossa conhecida “ira”);
  4. coração que maquina projetos iníquos (simplificadamente “maquinação”)
  5. pés que se apressam a correr para o mal (simplificadamente “prontidão para o mal”)
  6. testemunha falsa que profere mentiras (simplificadamente “falsos testemunhos”)
  7. e o que semeia contendas entre irmãos (simplificadamente “semear de discórdia”)

Já na época cristã a ideia de uma pequena lista de pecados capitais simples e claro (isto é, principais), e mortais no sentido que nos eliminam irreversivelmente da vida eterna no Paraíso foi ressuscitada (depois de uma tentativa de listagem de São Paulo que listou 15 pecados e ainda acabava com «e coisas semelhantes a estas»…) com o monge Evágrio do Ponto que listou oito vícios capitais que estão perto dos pecados capitais/mortais que nos são familiares:

  1. Gula
  2. Fornicação
  3. Avareza
  4. Orgulho
  5. Tristeza com a boa fortuna de outrém (isto é, inveja)
  6. Ira
  7. Vanglória/gabarolice
  8. Preguiça

Quando estes foram traduzidos para Latim e daí para outras línguas criou-se a confusão de “Tristeza com a boa fortuna de outrém” com a tristeza comum, logo pela altura que o Papa Gregório I definiu a lista definitiva de pecados mortais (fundindo tristeza com preguiça e vanglória com orgulho) havia quem contasse os dois tipos de triteza, contando assim 9 vícios/pecados.

Por sua vez, na Grécia pagã Platão e Aristóteles falavam já de sete virtudes, que foram introduzidas no cristianismo pelo poeta cristão Romano Prudêncio sob o nome de sete virtudes santas:

  1. Castidade (o oposto da luxúria)
  2. Temperança (o oposto da gula)
  3. Caridade (o oposto da avareza)
  4. Diligência (o posto da preguiça)
  5. Paciência (o oposto da ira)
  6. Gentileza (o oposto da inveja)
  7. Humildade (o oposto do orgulho)

Desculpando-me o leitor estes preliminares, agora podemos finalmente avançar para a questão de pensar “Quais seriam os pecados mortais/capitais que afectam a nossa democracia?” Fazendo analogia com os pecados principais listados pelas teologias acima com defeitos do nosso regime poderemos listar:

  1. Partidocracia (que é o pecado do “orgulho” dos partidos, considerando-se o princípio e o fim da política e que a sociedade civil lhes deve estar subordinada ou simplesmente aliada como apoio inferior)
  2. Opacidade (que é o pecado da “mentira” da falta de transparência da parte dos políticos)
  3. Sectarismo político (que é o pecado da “ira” das pessoas politizadas para com aqueles que discordam connosco ou pertencem a outra facção política ou ideologia)
  4. Jogos políticos (que é o pecado da “maquinação” dos políticos que desperdiçam tempo da política em coisas que não melhorar e governar a sociedade, que só ajuda aqueles que se querem servir da política)
  5. Centralismo (que é o pecado da “prontidão para o pecado” que utiliza a centralização de todos os aparelhos do poder em grandes centros, permitindo que a corrupção possa ser rapidamente executada pelos poderosos)
  6. Declarações públicas enganadoras (que é o pecado dos “falsos testemunhos” dos políticos, que são ditos abertamente e com toda a tranquilidade como se fossem verdade, sem temerem sequer serem “apanhados”)
  7. Incitamento à violência e à desobediência incivil (que é o pecado do “semear da discórdia” por agentes políticos ou politizados que ameaça a democracia e subverte a resistência a governação injusta por desobediência civil, tratando o tema sério de revoluções violentas que custariam a vida de muitos Portugueses, o Povo que estes revolucionários fingem ou pensam defender, como se fosse algo banal e corriqueiro)
  8. Corrupção (que é o pecado da “gula” dos dinheiros públicos, de poder e cargos)
  9. Apego ao poder (que é o pecado da “luxúria” dos governantes do desejo insaciável pelo poder)
  10. Injustiça social (que é o pecado da “avareza” por parte dos governantes cujas políticas sociais são injustas para com o todo ou pelo menos a maioria da sociedade)
  11. Apatia (que é o pecado da “tristeza” baça de cidadãos, ideólogos e interessados em política em geral que não têm interesse ou coragem para participarem na política e abrem o caminho à corrupção pelo liderar da política por outros menos honestos e idealistas mas que não são politicamente apáticos)
  12. Autopromoção (que é o pecado do “vangloriar” de um político ou colectivo de políticos que perdem mais tempo a auto-elogiarem-se e aos seus trabalhos e supostos resultados que a executa-los e servirem o país e a sua população)
  13. Adesivismo (que deriva do pecado da “inveja” de políticos fora do poder em relação àquilo que possuem as facções políticas no poder, criando neles por isso o desejo de aderir a todo e qualquer projecto político)
  14. Abstenção (que é o pecado da “preguiça” que afecta a cidadania e impede os cidadãos de tomar em suas mãos o poder que lhes poderia pertencer)

Cremos que todos concordaram que estes 14 pecados capitais/mortais básicos da democracia portuguesa são um bom retrato geral do quadro geral dos problemas do regime democrata representativo no nosso país. Portanto, como poderemos combater um sistema político dominado por estes pecados políticos? Só através de acção política guiada por igual número de opostas “virtudes democráticas” inspiradas nas sete virtudes santas e no oposto dos pecados listados para além da lista de 7 pecados:

  1. Abertura democrática (que é a virtude da “humildade” nos políticos, muitas vezes conhecida na política sob o nome de “humildade democrática”, a humildade de aceitar a participação de outros agentes para além dos partidos na formulação de decisões políticas)
  2. Transparência (que é a virtude da “verdade” nos políticos, demonstrada na abertura de informações políticas e estatais/governamentais)
  3. Tolerância política (que é a virtude da “paciência” nas pessoas politizadas ante aqueles cujos valores discordam ou até confrontam os nossos)
  4. Política sem jogos (que é a virtude da “honestidade” nos políticos demonstrada através da falta de “maquinação” política)
  5. Descentralização (que é a virtude do “evitar do pecado” nos governos ao descentralizar poder e dividir responsabilidades pelo sistema político e dar mais liberdade aos espaços regionais e locais)
  6. Declarações públicas sinceras e transparentes (que é a virtude do “testemunho sincero” nos políticos que não só não omite informação como a dá com os seus verdadeiros dados)
  7. Apelo à calma e a que qualquer desobediência seja civil pacífica (que é a virtude do “semear da concórdia” por agentes políticos através do não apoio e da condenação da revolução política e social violenta e armada por parte dos agentes políticos “do sistema”, apelando a quê, se houver de haver resistência antissistema que ela seja pacífica)
  8. Gestão honesta da coisa pública (que é a virtude da “temperança” do Estado que não gasta demais para alimentar clientelas ou gastos desnecessários)
  9. Política de serviço (que é a virtude da “castidade” dos políticos que não cedem à sedução do poder)
  10. Justiça social equilibrada (que é a virtude da “compaixão” dos governos que é expressada não através da caridadezinha nem do despesismo popularucho mas da economia social de mercado com política social assente num orçamento equilibrado)
  11. Intervenção política (que é a virtude da “alegria” que influencia todos os cidadão à participação na política conforme as suas possibilidades, para cumprir o ideal da cidadania e da democracia)
  12. Política sem egos (que é a virtude da “expressão de humildade” dos políticos que falam e agem na política para agirem pelo seu país sem buscar a sua autopromoção nem impor o seu ego à actividade política)
  13. Militância de ideologia e acção (que é a virtude da “amabilidade” dos políticos fora do governo que não “invejam” os políticos que têm poder, e por isso não aderem a todo e qualquer projecto para ter dito poder, sendo militante de um ou outro projecto político somente por concordância com a ideologia e acção dele, mantendo-se fiel a ele excepto se discordar da sua ideologia e acção, e só abandonando um projecto político por outro somente por essas razões)
  14. Participação eleitoral (que é virtude da “diligência” dos cidadãos que não deixam que decidam por eles e por isso não se abstêm)

A luta do Movimento Cidadania e Democracia Participativa é exactamente de combater estes “pecados” a gerir um movimento político que seja livre deles e tenha as “virtudes” já referidas.

Vítor Monteiro, membro do Conselho Constituinte do MCDP