“Desmanipular” a democracia

O nosso mundo encontra-se dividido, infelizmente até pontos artificiais. O distributista católico e liberal social (conservador cristão em costumes) G. K. Chesterton dizia à volta de 100 anos que “Todo o Mundo Moderno se divide entre Progressistas e Conservadores. O papel dos Progressistas é cometer erros continuamente. O papel dos Conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos.” Hoje, que palavras tão actuais: em várias partes do mundo temos sistemas instalados (que são os “conservadores”, não sempre em sentidos ideológicos, mas conservadores em relação a quererem conservar um status quo existente), manipulados, abusivos e que cedem sempre em relação à democracia plena aqui ou ali, e um campo completamente oposto, que recusa mesmo o positivo dos oponentes e se alguma vez chegar ao poder poderá “deitar o bebé fora com a água” na tentativa de cortar com o pior do sistema (que são os “progressistas” em relação ao sistema existente, embora possam ser ideológica ou eticamente conservadores ou moderados e não progressistas de facto). Na Venezuela, esta bipolarização chegou mesmo ao ponto de fragmentar famílias, pôr pais e filhos a não se darem, filhos a tentarem “subornar” os pais para mudarem de lado sob o risco de não os deixarem ver os netos quando os tivessem, os diferentes blocos a verem-se como literalmente diabólicos, entre outras coisas.

Esta bipolarização é negativa, porque bloqueia o sistema, radicaliza-o, torna-o um debate não entre diferentes posições mas entre diferentes posições que vêm do outro lado não visões diferentes mas caricaturas exageradas do lado oposto, acabando elas próprias por se extremarem defensivamente contra inimigos imaginários. Se não se pode reconhecer qualquer coisa de positiva no sistema corrente que se possa utilizar e desenvolver pode-se correr no risco de acabar por piorar as coisas ao avançar para um sistema por testar e deixar de lado o que o sistema tem de positivo, e se não reconhecemos ao oponente o direito de se expressar e ser ouvido que democracia verdadeira pode haver? Neste mundo parece que só se pode ser pela “austeridade” que só é austera para a maioria da população mas segue despesista para o governo, ou pelo despesismo que pouco mais faz que beneficiar interesses corporativos e dar “migalhas” aos pobres que como pobres ficarão, e parece que só se pode defender a democracia representativa ou democracias supostamente completamente directas e populares que não no fundo são manietadas por líderes demagógicos carismáticos e manobras de bastidores de puder pelo poder.

No meio destas bipolarizações em que se perde a preocupação principal com a democracia, encontramos gente à esquerda, à direita, ao centro e acima das ideologias que são “lufadas de ar fresco”. Eduardo Galeano é uma delas (basta dizer que Hugo Chávez deu uma cópia de “As Veias Abertas da América Latina” de Galeano a Obama como forma de o introduzir a um entendimento dos problemas da América Latina num socialismo que fosse “tragável” para um presidente “imperialista”). O Uruguaio Eduardo Galeano, vindo de uma família de pura ascendência europeia, tornou-se um dos principais teorizadores das questões latino-americanas e da democracia a nível mundial. Ele tem ao longo de anos desde os anos ’70 apresentado uma ideologia defendendo não só condições sociais mais igualitárias (terminando preconceitos raciais e sociais e mais controlo sobre forças globais que influenciem as vidas das pessoas, mas mais que uma destruição de organizações internacionais como o FMI, a OMC, multinacionais, o G8, o G20 e o BCE. Galeano tem visto com apreciação os movimentos espontâneos Occupy como parte do “nascimento de outro mundo”, visto que embora o mundo permaneça podre “há outro mundo neste [do mundo] ventre que está a aguardar”. Tal como a vida de dissidente de Galeano foi vivida entre Índios, guerrilhas, presidentes e prostitutas, defendendo compatriotas, miúdos da rua Brasileiros, os indígenas Mexicanos na sua causa e várias crianças abandonadas, em Portugal hoje precisamos de um movimento que viva entre as gentes das periferias portuguesas, movimentos sociais, dissidentes dos velhos partidos e membros de grupos ostracizados, defendendo cidadãos, minorias e cidadãos naturalizados, as populações regionais que lutam pelos serviços que lhes retiraram e vários “filhos da nação” portuguesa que foram abandonadas pelo sistema político. Deixemos o próprio Galeano dar a sua intervenção sobre a democracia social e a alternativa.

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